A
pesquisa em arte, ciência e feitiçaria
I
A criação artística é uma
atividade difícil de ser enquadrada no método clássico de pesquisa, e isso gera
um problema para quem produz arte dentro das universidades ou institutos de
pesquisa no nosso país. O fato ocorre principalmente porque o método clássico
de pesquisa parte de um problema, sobre o qual formulamos hipóteses, e o
caminhar da pesquisa são as ações que realizamos para a verificação dessas
hipóteses, se elas são positivas ou negativas. Esse processo, com os resultados
finais predeterminados, em tabelas matemáticas, com bases estatísticas, nem
sempre condiz com a pesquisa voltada para projetos artísticos. Todo o processo
da investigação é orientado por delimitações claras de objetivos gerais,
objetivos específicos, procedimento metodológico e resultados esperados. Uma
estrutura perfeita para as ciências exatas, mas bastante comprometedora para as
ciências humanas. Como delimitar os resultados esperados em um projeto de
pesquisa que se propõe a criação de uma obra artística? Seja essa a criação de
um livro de poemas, um filme de curta-metragem ou um álbum de fotografia
artística? Se o projeto prevê um processo de criação, sabemos apenas que o
artista vai buscar dar forma, volume, cor e intensidade psicológica a uma forma
de expressão. O resultado será uma expressão, e a comunicação só poderá vir
dessa expressão, particular. Na maioria dos casos de projetos artísticos,
descrevemos os objetivos, delimitamos um caminho a ser seguido para que
tenhamos boas condições de avaliação nas agencias de fomento e nas câmaras de
pesquisa dos institutos. Dizemos, antecipadamente, o que será criado antes de
criarmos qualquer coisa. Thomas Kun chamou a atenção para este problema ao
dizer que essa incongruência ocorre porque o “estudioso das ciências humanas
quer fazer pesquisa, ou seja, quer imitar seus pares das ciências exatas”, e
nessa orientação nos equivocamos redondamente. Para Kun “ao pesquisador de
literatura deveria ser mais importante conhecer Shakespeare do que fazer
pesquisa sobre Shakespeare”. Jorge Vieira nos lembra de que a arte é uma forma
de conhecimento do mundo. Pesquisar para produzir obras de criação artística é
uma forma de gerar conhecimento. A teoria do conhecimento não descarta nunca as
artes. As grandes áreas do saber são quatro. As ciências, as filosofias, as
artes e as religiões. Tudo o que quisermos saber cabe dentro dessas quatro
áreas. O mais interessante de tudo é que elas se completam, não se opõem. O
método clássico de pesquisa está bem próximo da matemática, com seus cálculos,
probabilidades, estatísticas e hipóteses verificáveis, porque razoáveis. Na
arte, a pesquisa é mais prática, pois procura-se a cor que dê o melhor efeito
esperado, a melhor forma para o conteúdo, dentro de uma coerência. Sabe-se como
se vai fazer, mas não se sabe como ficará depois de pronto. A dificuldade está
em descrever os resultados esperados antes do fim. Este fator inviabiliza a
liberação de financiamento dos projetos pelos programas de incentivo à produção
artística nas universidades. Mesmo os programas de financiamento de projetos
artísticos pedem os objetivos, o percurso metodológico que será seguido e os
resultados esperados. Salvo exceções. Como descrever o processo de trabalho e
de pesquisa de um feiticeiro? Um preto velho que usa a fumaça para invocar uma
sabedoria? Um doente que é benzido por um índio curandeiro com pena de uma
certa ave, por que aquela ave e não outra? Há lógica e conhecimento intuitivo
nesses processos que só podem ser verificados mais tarde pelos experimentos
científicos. O que têm em comum o mago, o pajé e o feiticeiro? Ambos trabalham
na esquina do natural com o sobrenatural. Seus métodos não são clássicos, pois
não dão garantia dos resultados esperados. Eles não teriam financiamento dentro
das grandes universidades, se tivessem que comprovar a eficácia de suas
metodologias, antes mesmo das operações. A feitiçaria não oferece garantias.
Somente ficamos sabendo depois se o feitiço deu certo ou não. Ainda que o
feiticeiro garanta sempre que o feitiço vai funcionar.

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