Cinema, Escritura, Fotografia, Poesia e Literatura

segunda-feira, 26 de maio de 2014



A pesquisa em arte, ciência e feitiçaria

 
                                          Dirceu Martins Alves

I

 

A criação artística é uma atividade difícil de ser enquadrada no método clássico de pesquisa, e isso gera um problema para quem produz arte dentro das universidades ou institutos de pesquisa no nosso país. O fato ocorre principalmente porque o método clássico de pesquisa parte de um problema, sobre o qual formulamos hipóteses, e o caminhar da pesquisa são as ações que realizamos para a verificação dessas hipóteses, se elas são positivas ou negativas. Esse processo, com os resultados finais predeterminados, em tabelas matemáticas, com bases estatísticas, nem sempre condiz com a pesquisa voltada para projetos artísticos. Todo o processo da investigação é orientado por delimitações claras de objetivos gerais, objetivos específicos, procedimento metodológico e resultados esperados. Uma estrutura perfeita para as ciências exatas, mas bastante comprometedora para as ciências humanas. Como delimitar os resultados esperados em um projeto de pesquisa que se propõe a criação de uma obra artística? Seja essa a criação de um livro de poemas, um filme de curta-metragem ou um álbum de fotografia artística? Se o projeto prevê um processo de criação, sabemos apenas que o artista vai buscar dar forma, volume, cor e intensidade psicológica a uma forma de expressão. O resultado será uma expressão, e a comunicação só poderá vir dessa expressão, particular. Na maioria dos casos de projetos artísticos, descrevemos os objetivos, delimitamos um caminho a ser seguido para que tenhamos boas condições de avaliação nas agencias de fomento e nas câmaras de pesquisa dos institutos. Dizemos, antecipadamente, o que será criado antes de criarmos qualquer coisa. Thomas Kun chamou a atenção para este problema ao dizer que essa incongruência ocorre porque o “estudioso das ciências humanas quer fazer pesquisa, ou seja, quer imitar seus pares das ciências exatas”, e nessa orientação nos equivocamos redondamente. Para Kun “ao pesquisador de literatura deveria ser mais importante conhecer Shakespeare do que fazer pesquisa sobre Shakespeare”. Jorge Vieira nos lembra de que a arte é uma forma de conhecimento do mundo. Pesquisar para produzir obras de criação artística é uma forma de gerar conhecimento. A teoria do conhecimento não descarta nunca as artes. As grandes áreas do saber são quatro. As ciências, as filosofias, as artes e as religiões. Tudo o que quisermos saber cabe dentro dessas quatro áreas. O mais interessante de tudo é que elas se completam, não se opõem. O método clássico de pesquisa está bem próximo da matemática, com seus cálculos, probabilidades, estatísticas e hipóteses verificáveis, porque razoáveis. Na arte, a pesquisa é mais prática, pois procura-se a cor que dê o melhor efeito esperado, a melhor forma para o conteúdo, dentro de uma coerência. Sabe-se como se vai fazer, mas não se sabe como ficará depois de pronto. A dificuldade está em descrever os resultados esperados antes do fim. Este fator inviabiliza a liberação de financiamento dos projetos pelos programas de incentivo à produção artística nas universidades. Mesmo os programas de financiamento de projetos artísticos pedem os objetivos, o percurso metodológico que será seguido e os resultados esperados. Salvo exceções. Como descrever o processo de trabalho e de pesquisa de um feiticeiro? Um preto velho que usa a fumaça para invocar uma sabedoria? Um doente que é benzido por um índio curandeiro com pena de uma certa ave, por que aquela ave e não outra? Há lógica e conhecimento intuitivo nesses processos que só podem ser verificados mais tarde pelos experimentos científicos. O que têm em comum o mago, o pajé e o feiticeiro? Ambos trabalham na esquina do natural com o sobrenatural. Seus métodos não são clássicos, pois não dão garantia dos resultados esperados. Eles não teriam financiamento dentro das grandes universidades, se tivessem que comprovar a eficácia de suas metodologias, antes mesmo das operações. A feitiçaria não oferece garantias. Somente ficamos sabendo depois se o feitiço deu certo ou não. Ainda que o feiticeiro garanta sempre que o feitiço vai funcionar.

 

 


 

 

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